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Crise
revela limites da democracia boliviana Luiz
Alberto Moniz Bandeira Junio de 2005 Em
depoimento no Senado dos EUA, em Março de 2000, o general Charles Wilhelm,
comandante-em-chefe do Southcom (Comando Sul), reconheceu que no Equador, como
em outras nações na sua área de responsabilidade, a América do Sul, "a
democracia e as reformas de livre mercado não estavam propiciando tangíveis
resultados para o povo". Ele disse que muitas nações estavam pior
economicamente do que antes da restauração da democracia e perguntou:
"Pode a democracia sobreviver sem o sistema econômico que produza adequada
subsistência e serviços para seus cidadãos?". O fim das
ditaduras militares e a liberalização da economia não trouxeram resultados
tangíveis nem para o Equador nem para a Bolívia, onde, em 1952, ocorrera uma
revolução que nacionalizou as minas de estanho, promoveu a reforma agrária,
extinguindo as relações de servidão e incorporando os índios à sociedade, e
desmantelou o Exército, substituído por milícias operárias e camponesas, sob o
comando da Central Operária Boliviana. As forças
de esquerda, no entanto, não tiveram condições de avançar, e os EUA, sob a Presidência
de Dwight Eisenhower, optaram por uma estratégia de conciliação, o que permitiu
ao presidente Víctor Paz Estensoro reconstruir o Exército, cujos oficiais
passaram a receber formação avançada em base militar no Colégio Interamericano
de Defesa (Panamá), absorvendo a doutrina da ação cívica e a estratégia da
contra-insurreição. Esses
ensinamentos se infiltraram na estrutura de comando do novo Exército, e o
general René Barrientos, em 1964, desfechou um golpe militar. A Bolívia entrou
em outro período de turbulência. O regime
democrático só foi restabelecido em 1982 e, a fim de controlar a hiperinflação,
o presidente Víctor Paz Estensoro, líder do Movimento Nacionalista
Revolucionário (MNR), que voltara ao governo em 1985, impôs um programa de
ajuste estrutural. Seus sucessores, Jayme Paz Zamora (1989/93), do Movimento da
Esquerda Revolucionária (MIR), e Gonzalo Sánchez de Lozada (1993/98), do MNR,
aplicaram com certo êxito o mesmo programa neoliberal, dado que a hiperinflação
o tornara aceitável para a população. Desde que
Argentina, Brasil e EUA deixaram de encorajar golpes de Estado, o regime
democrático se estabilizou no país e, de 1990 a 1998, sua economia cresceu a
uma taxa média de 3,9%, e a inflação caiu de 7.000%, em 1985, para 3%, em 1999.
Porém, na inauguração do seminário "Estratégia boliviana de redução da
pobreza" (EBRP), o próprio presidente Hugo Banzer deplorou que a
estabilidade econômica em 15 anos não houvesse contribuído para diminuir os
índices de pobreza, em que mais da metade da população (63%), em especial a de
origem indígena, vivia em 2000. Na área
rural, mais de 80% da população estava reduzida à miséria. A questão agrária
tornou-se outra vez grave fator de tensões sociais, e os conflitos irromperam.
O aumento das tarifas de água na cidade de Cochabamba, em conseqüência de
contrato com uma empresa estrangeira, desencadeou em Abril de 2000 um levante
popular, que se estendeu aos produtores de coca, na região de Chapare, e a
outros camponeses e de trabalhadores em outras cidades. A
Confederação Sindical Única dos Trabalhadores Camponeses da Bolívia iniciou o
bloqueio das estradas e, ante a ameaça de convulsão social, o presidente Hugo
Banzer decretou estado de sítio por 90 dias. A agitação seguiu por dias e só
diminuiu depois que ele firmou convênios com os camponeses, intermediados pela
Igreja Católica e por organizações de direitos humanos. Prometeu a reativação
da economia e pediu perdão pelos pobres que um sistema social excludente
produzia. As
tensões, porém, voltaram a agravar-se, quando se anunciou a construção de três
bases militares na região de Chapare, com o apoio dos EUA, a pretexto de
combate às drogas. Ocorreram então manifestações de protesto, bloqueio das
estradas e violentos choques entre tropas do Exército e camponeses, que se
opunham à erradicação do cultivo de coca. O afastamento de Banzer configurou-se
como a única saída para apaziguar o país e, em 6 de Agosto de 2001, ele
apresentou sua renúncia ao Congresso. Gonzalo
Sánchez de Lozada, que governou o país de 1993 a 1997, foi eleito indiretamente
pelo Congresso Nacional, derrotando Evo Morales, dirigente do Movimento ao
Socialismo (MAS), importante líder camponês e acusado pelos EUA de envolvimento
com o narcotráfico por defender os interesses dos plantadores de coca,
atividade milenar dos indígenas bolivianos. Sánchez de
Lozada promoveu então uma série de reformas neoliberais e privatizou desde a
distribuição de água até a exploração e exportação de gás e petróleo. Mas não
conseguiu manter-se no governo quando concedeu autorização para que os EUA e a
Espanha (Repsol) exportassem petróleo -por meio do território perdido para o
Chile, no litoral do Pacífico, desde a guerra de 1879/84. Ante maciças
manifestações populares em 2003 e após ordenar violenta repressão em outubro,
que deixou 78 mortos, e razias em bairros populares, ele teve de renunciar e
exilou-se na Argentina. O que
outra vez detonou crise na Bolívia foi a discussão da Lei de Hidrocarbonetos
-gás e petróleo- no Congresso, no que se refere à cobrança de royalties e
impostos. O presidente Carlos Mesa apóia proposta segundo a qual as empresas
que exploram o gás boliviano devem pagar ao Estado 18% a título de royalties, e
Evo Morales, entendendo que o percentual deve ser de 50%, desencadeou o
movimento de oposição, com dirigentes sindicais. Carlos Mesa, diante da
agitação, apresentou sua renúncia, rejeitada pelo Congresso. Os EUA
também constituem parte da crise na Bolívia, onde mantêm uma embaixada com
cerca de 900 funcionários e enorme quantidade de tropas das Forças de Operação
Especiais, que desde 1999 já treinaram mais de 6.000 militares bolivianos e
atuam principalmente nas regiões cocaleiras de Chapare e Yungas. Há
interesses em encorajar o sentimento separatista de Santa Cruz de la Sierra, um
vasto território muito rico, geograficamente localizado na malha hídrica da
América do Sul, que é o sustentáculo econômico da Bolívia. Mas, segundo
políticos bolivianos, a pressão pela autonomia da região, recentemente
desencadeada, não corresponde ao tradicional sentimento separatista, que lá
sempre existiu, mas resulta de uma operação montada pelas companhias de
petróleo depois da aprovação da nova Lei de Hidrocarbonetos no plebiscito de
2004 e que ainda deve ser regulamentada |