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O Equador, o
Brasil, e a tríplice fronteira Mauro Santayana Marzo 2008 Em política nada ocorre
por acaso, embora o acaso possa
ajudar nos projetos de
poder. Essa constatação é mais freqüente nas relações internacionais.
Constatação inquietante, no caso do incidente entre a
Colômbia e o Equador é a de
que a operação militar foi
deflagrada no momento em que a França
negociava diretamente com Reyes a libertação de Ingrid
Betancourt. Há que se presumir que as Farc, até mesmo por tática política, estavam buscando
alternativa à mediação de Chávez. Os contatos com Chávez e a operação de libertação dos outros reféns haviam
vulnerado, de uma e de outra
forma, a segurança dos guerrilheiros.
Tudo indica que eles preferissem
- como alguns observadores sugeriram
- negociar a libertação da senhora
Betancourt e de outros reféns,
mediante o Equador. Houve, em terceiros países, encontros entre representantes das Farc
e emissários de Quito, o que é natural em situações semelhantes.
Do ponto de vista político, logo depois de obtida, com a ajuda
de Caracas, a última libertação de reféns, convinha às Farc afastarem-se,
com discrição, do
presidente da Venezuela. Urgia negociar com o governo francês
o modo de libertar a Senadora, no momento enferma. Quando
mais depressa pudesse libertá-la - desde que não lhe fora
possível fazê-lo antes - melhor seria para a ação militar
e política das Farc. É nesse momento que entra em jogo outro
e importantíssimo fator: o interesse direto de Washington em dificultar o envolvimento do Elisée e do Quai d'Orsay na Região.
Sabendo-se que as operações
militares do governo de Bogotá são
assessoradas, há décadas,
por conselheiros norte-americanos, seria de esperar
que os setores da inteligência
do Pentágono e da CIA agissem rapidamente,
e em conjunto, para a localização
dos guerrilheiros e a operação
que os matou. E é preciso suspeitar
que os documentos "apreendidos" pelos
colombianos com Reyes sejam
tão autênticos quanto as armas de destruição em massa de Saddam
Hussein. É inverossímil -
e, portanto, improvável -
que Reyes levasse consigo, em
missão, tão delicada quanto perigosa, ao território equatoriano,
supostas anotações sobre a ajuda de Chávez à guerrilha e fuzis de brinquedo para treinamento. Chega a ser estúpida
a hipótese de que as Farc fossem fabricar munições radiativas em plena selva.
Especialistas em fabricá-las
e usá-las são os ianques, como se viu nos Bálcãs. Os Estados Unidos continuam
movidos pelo enunciado do Destino Manifesto (de 1845)
e da Doutrina Monroe
(1823). A Doutrina Monroe não chegou a ser aplicada, embora fosse invocada, em 1867, para pressionar a França a abandonar suas pretensões no México. Em 1898 voltou a ser reivindicada na
Guerra contra a Espanha - e se perverteu
de vez, em 1904 - com a mensagem de Theodore Roosevelt ao Congresso.
Nesse documento, conhecido
como Corolário da Doutrina Monroe, os Estados Unidos se arrogam
o direito de intervir na América Latina, quando considerem que qualquer governo da região não aja "corretamente". O discurso de Bush, ao reiterar apoio a Bogotá, e
considerar legítima a violação do território
equatoriano, sob o pretexto
do "direito de perseguição",
deve ser entendido em Paris
como advertência a Sarkozy.
A França tem seus interesses na área, com a velha presença na Guiana. Qualquer
conflito ali a obrigará a nele envolver-se, sob o risco de perder o departamento ultramarino. É velha a constatação
de que é preciso manter, até a exaustão,
as conversações em busca do
entendimento. E outro velho aviso recomenda
restringir-se a área do conflito, buscando a neutralidade dos vizinhos. A
diplomacia brasileira está bem
preparada para agir. Trata-se também
de oportunidade para que os países da América Latina dispensem a tutela do big stick de Ted Roosevelt
e as tentativas recolonizadoras da Europa, tão claramente expostas pelos espanhóis, sob a presunção imperial de Juan Carlos. Não
entende o Bourbon que uma coisa é nascer
Carlos V e legar o reino e o Império a Filipe II; outra é dever o trono ao fascista
Francisco Franco. A proposta do presidente Lula -
que poderia ter sido
formulada por Rio Branco - de se criar Organismo
Regional de Segurança da América do Sul, é a primeira reação, serena e firme, a fim de
que o continente dispense, de vez, a tutela européia
e norte-americana sobre a Região. Não
cremos em destinos manifestos, mesmo porque o nosso é o de conquistar o que já temos, mediante a ocupação dos
grandes vazios geográficos internos. Mas, para
proteger a própria soberania,
devemos contribuir para que a soberania
dos outros também seja preservada, no Equador, como
na Tríplice Fronteira. A isso podemos chamar diplomacia responsável
- e estrategicamente pragmática. |