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América do Sul
precisa de um Plano Marshall Samuel Pinheiro Guimarães Agosto 2008 Logo à entrada do gabinete do secretário-geral do Ministério de Relações
Exteriores, Samuel Pinheiro Guimarães,
o desajeitado troféu Juca Pato - Intelectual do Ano, conferido em 2006 pela União Brasileira dos Escritores, lembra
que o polêmico diplomata é,
também, referência para uma parte importante da intelectualidade
brasileira. No Itamaraty, despertou críticas com seus métodos de gestão, que incluíam a exigência de leitura de livros apontados por ele, para diplomatas
em vias de promoção, mas firmou reputação de bom administrador, garantindo melhoria de infra-estrutura e de salários para o ministério.
Samuel Pinheiro Guimarães: Tudo. A UNASUL é o primeiro organismo sul-americano
que reúne países subdesenvolvidos, com características comuns, para
articular sua ação para
dentro e para fora do continente. A UNASUL já está sendo um extraordinário mecanismo de articulação
e coordenação dos dirigentes da América do Sul. A defesa de nossos interesses comuns é vital em um mundo marcado pelo arbítrio,
pela assimetria de poder entre Estados e pelas crises financeira, ambiental,
energética e de alimentos. A redução do arbítrio e da assimetria e a solução dessas crises, que são fenômenos globais, dependerá de negociações que decidirão nosso futuro. As reuniões da
UNASUL geram oportunidades para encontros
de presidentes e ministros, permitindo compreender os desafios de cada sociedade, definir esquemas de cooperação
e articular posições comuns
nas negociações com outros países e blocos.
Pinheiro Guimarães: As assimetrias
são a característica principal da América do Sul e elas distorcem
e dificultam a realização
do nosso potencial. É indispensável
que todos os países possam contribuir para o desenvolvimento econômico e para
a estabilidade política da Região
e isso depende da redução
das disparidades internas e das assimetrias entre
eles. O livre jogo das forças de mercado e o livre comércio não serão
suficientes para promover o desenvolvimento sempre que existirem gravíssimas deficiências estruturais e assimetrias
enormes. Por esta razão, e até com
menos razão, os países mais
desenvolvidos europeus, em seu processo
de integração, criaram fundos para o desenvolvimento dos
países mais atrasados, em
que os mais ricos contribuem
com recursos importantes para o desenvolvimento
dos mais pobres.
Pinheiro Guimarães: Não
há um custo
em estabelecer melhores condições de financiamento de obras, de acesso
a mercados, de investimentos. Há
um custo enorme em não fazer
ou em fazer
como se os países fossem iguais
em dimensão e potencial.
Pinheiro Guimarães: Um
esforço maior de remoção dos obstáculos que dificultam
a entrada de produtos dos vizinhos
no mercado brasileiro, um maior esforço para melhorar as condições e volume de crédito para obras de infra-estrutura, um esforço
maior para facilitar as transações
comerciais aperfeiçoando os
sistemas de pagamento em moeda local, um maior esforço para ampliar em muito os fundos
de redução de assimetrias,
tais como o Fundo de Convergência Estrutural
do MERCOSUL, o FOCEM. Acima de tudo,
é preciso imaginar um programa mais
amplo, mais enérgico, mais generoso e mais ágil dos
países mais ricos da Região
em favor daqueles mais pobres. Este programa é urgente, como foi o Plano Marshall para
reconstruir a Europa, devastada após a guerra.
Precisamos superar a devastação diária
causada pelo subdesenvolvimento. Pinheiro Guimarães: Os interesses
do Brasil, o seu desenvolvimento
econômico e político, estão
vinculados ao progresso econômico e à estabilidade
política de cada vizinho e isto
cada vez mais, devido aos laços que nos unem a eles e que tanto vêm se aprofundando e fortalecendo. Não há concessões
excessivas quando as diferenças de dimensão são tão extraordinárias
e quando nossos interesses as exigem para a construção de um Bloco que nos fortaleça a todos.
Pinheiro Guimarães: A ajuda
aos vizinhos reverte em benefício do Brasil. A construção da infra-estrutura, o desenvolvimento
industrial, o aumento de demanda cria oportunidades não só para as empresas brasileiras mas para nossos trabalhadores pois aumenta a
demanda por produtos e serviços
brasileiros. O extraordinário
aumento das exportações brasileiras,
assim como os investimentos
de empresas brasileiras nos últimos seis anos prova isto. Os custos serão sempre
menores que os benefícios.
Pinheiro Guimarães: O cálculo da tarifa de energia leva em conta o custo de produção das diferentes empresas que operam
no Brasil. A tarifa de energia elétrica
de Itaipu é um dos
componentes para o cálculo da tarifa geral. A tarifa
de Itaipu obedece a método de cálculo definido pelo Tratado,
que tem sofrido ajustes ao longo do tempo, desde 1973. Preservado o elemento
central do Tratado, há sempre
espaço para entendimentos
técnicos. Há enormes possibilidades
de cooperação entre Brasil e Paraguai
para em benefício mútuo promover o seu desenvolvimento. O presidente Lugo e o presidente Lula sabem da importância deste esforço de compreensão e de cooperação.
Pinheiro Guimarães: As crises
nas economias da Região são o reflexo
de crises no centro da economia
mundial. Essas são movimentos cíclicos do sistema capitalista, às vezes resultado de grandes
manobras especulativas nos diferentes mercados de bens,
como o petróleo, e no sistema financeiro desregulamentado pelo neo-liberalismo, hoje
arrependido na prática. Cada país da América do Sul
tem características próprias
e procura lidar com suas crises que têm origem no exterior a partir
de sua visão dos interesses de sua sociedade. Se há crise na Argentina, como os arautos do pessimismo apregoam sem cessar,
ela tem por hora afetado marginalmente o Brasil, como revela a expansão vigorosa de nosso comércio e dos investimentos.
Nada temos a ensinar a quem quer que seja,
em termos de política econômica,
ou de qualquer outra.
Pinheiro Guimarães: Nem
todos os países souberam vencer a gravíssima
crise que a Argentina venceu
e nem todos crescem à taxa que a Argentina tem crescido. Como a solução foi heterodoxa, as críticas não cessam nem a previsão
de colapso iminente, sempre
adiado.
Pinheiro Guimarães: As FARC são uma questão
interna da sociedade colombiana. O Brasil anseia para que o povo colombiano
encontre uma solução negociada para suas divergências. O Brasil está sempre
disposto a atender qualquer
solicitação do governo
colombiano para colaborar neste sentido e já manifestou várias
vezes essa posição. Não há
queixa da Colômbia com relação à posição
brasileira e, pelo contrário,
há apreço e reconhecimento. Nem há pressa de nossa
parte.
Pinheiro Guimarães: As mudanças
de atitude de presidentes decorrem
de sua avaliação da situação mundial e Regional. Sei
que Colômbia e Venezuela são
países irmãos, unidos pela sua
história comum e por fortes vínculos econômicos. Seu comércio bilateral atinge US$ 6 bilhões, sendo a Venezuela
o principal mercado para as indústrias colombianas e muito importante para a sua
agricultura. Há 4 milhões
de refugiados colombianos na Venezuela e recentemente foi inaugurado um gasoduto entre os dois países. O interesse verdadeiro dos dois países é o entendimento e a cooperação.
Pinheiro Guimarães: O Brasil continua
convencido de que um Conselho
de Defesa na América do Sul contribuirá para a construção
de confiança, para melhor conhecimento entre dirigentes militares das questões que os preocupam, das
oportunidades para executar programas de reequipamento e desenvolvimento
da indústria de defesa no
continente, o que além de gerar
empregos e tecnologia
economizará recursos e surpresas a todos nós. Com o tempo, haverá crescente compreensão da importância da coordenação política e de defesa na América do Sul, direito inalienável dos Estados
soberanos.
Pinheiro Guimarães: A ameaça
à soberania da Amazônia é o
seu subdesenvolvimento insustentável. As ONGs no mundo e
no Brasil procuram influir sobre as políticas desenvolvidas pelos governos nos mais diversos campos. Sua
atuação deve se pautar pelo respeito à lei e à soberania nacional. Cabe ao
Brasil executar políticas de desenvolvimento
sustentável que atendam à realidade dos 25 milhões de brasileiros que vivem na Amazônia, que permitam a exploração racional de
seus recursos, que defendam
seus recursos de uma apropriação indébita, como a biopirataria. De forma sempre
soberana.
Pinheiro Guimarães: As Forças
Armadas necessitam de um esforço ainda maior
de reequipamento para poder enfrentar a tarefa de defesa do território, do mar territorial, da zona econômica
exclusiva, do espaço aéreo contra ameaças
tradicionais, reais ou potenciais, e 'novas' ameaças. Esse esforço
sistemático de modernização tecnológica e de reconstrução da indústria de defesa brasileira é imprescindível pois não há defesa
eficaz quando se depende de equipamento
importado.
Pinheiro Guimarães: Os Estados Unidos são e continuarão a ser o país com maior influência
na Região. Há mais influência
americana em cada país da Região
do que influência de qualquer
país da Região em qualquer outro. É claro que a influência econômica, social,
cultural, tecnológica, política, militar dos Estados Unidos no Brasil é muito maior do que a influência de qualquer país
andino, caribenho ou
platino no Brasil. Essa crescente
aproximação entre os países sul-americanos
e a eleição de governos, de
diferentes matizes, de esquerda
permitem um diálogo mais proveitoso e respeitoso entre os países da Região
e de cada um deles com os Estados Unidos, e uma articulação serena e digna em defesa de nossos interesses.
Pinheiro Guimarães: O povo
americano é democrático, como comprovam seus 232 anos de democracia e seus
renovados esforços para aperfeiçoá-la,
como foram a Guerra Civil para abolir a escravidão, a legislação dos direitos sociais, hoje ameaçada, a oposição popular à Guerra do Vietnã,
a necessária reforma do sistema eleitoral,
às vezes falho, e o aumento da participação
popular na escolha dos
candidatos com a indicação
de um afro-descendente para presidente. As elites tendem a se comportar de forma imperial em
suas relações com os demais Estados, devido à sua crença
na perfeição suprema dos
sistemas político, econômico e social americano. Isto por vezes lhes causa grandes decepções e surpresas. É preciso reformar, democratizar o sistema
político internacional, defender e lutar pelos princípios das Nações Unidas,
fundada pelos Estados Unidos, onde quer e por quem quer que estejam sendo violados: não intervenção, autodeterminação, respeito à integridade territorial, solução
pacífica de controvérsias, igualdade
soberana dos Estados |